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quarta-feira, 5 de março de 2014

Musette


(Ou: Soneto de melodia simples, com baixos insistentes)

O interlúdio lúdico de jograis,
Espasmos cadenciados... e stacattos.
Consonantes (coloridos!) madrigais.
Trechos inacidentados: bequadros.

Progride a mediantes (mas não sensíveis)
Acorde d’um cravo (des)temperado
(são notas muitas, incomensuráveis)
Que, de abrupto, se vê assim pausado.

Mas valeu nossa singela musette
(que nos precede ao adiamento cromático).
E feito a música é o sutil átimo,

Que em horas belas antecede e sucede
longos silêncios, a ausência (que irônico)
É a tônica comum do nosso encontro.

(a T. M. A. 04/02/2014)

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

O que eu quero


 (7-8-8)

Quero um amor de cinema
Um amor de Júlias e Brigitas
Não quero amor de Adélia

Não quero quem me ame se.
Não quero quem me ame mas.
E porém, e contudo, e entretanto.
Quero quem me ame apesar de.
Quem me ame sobretudo. E além.
Não quero todavia. Quero todas as vias.

Quero amor de poema
Que valha a pena
O lápis e a caneta
Não quero venetas. Estreitas.
Quero ancho, não pranto

Quero amor falado, abobalhado
Sincopado. Erótico. Exótico.

Quero o que eu nunca ainda tive
E meu querer insiste, e insiste, e insiste
Quero talvez o que não existe

Mas meu querer insiste, e insiste, e insiste.

(Laura Santos)

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

O amor e o amar

Já disseram que se mede a quantidade que se viveu pelo tanto que se amou.

Pois eu vivi infinito então! Eu amei muito e tanto! Amei muitos também.

O fato de eu não ter sido amado, por outro lado - para esse fim específico de viver (assim quantificado) - não tem a mínima significância.

Faz falta. Mas não mata.

(Anônimo)

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Conto número três


Conto número três
(ou a verdadeira história da reforma no prédio de Fabiana)

Para se ter uma ideia, o primeiro encontro com Fabiana nem foi no seu próprio prédio, foi numa sala emprestada de alguém, de quem nem se lembra mais. Ali nunca mais se voltou.
Quando cheguei ao prédio de Fabiana achei meio antigo (velho, na verdade) aquele ar soturno, entrada enclausurada e o porteiro me sorriu um sorriso muito magro:
- Identidade, senhora, vai para onde?
- Vou ao terceiro, vou ver Fabiana. Respondi apresentando identidade, CPF, carteira de motorista. Não tinha talão de cheques, mas se tivesse mostrava.
Reparei a pintura descascada, aquele piso esfregado, mas com ar de mal lavado. Um elevador estava enguiçado.
Subo então e, no cubículo, aguardo tentando aprender pelas as revistas da antessala - e se passaram muitos, muitos tempos.  Mas insisti... e voltei sempre, mesmo sem ser convidada.
Eis que um dia eu chego lá e vejo um belo estrago! Na entrada, o chão todo arrancado, pedaços de cerâmicas por todo lado, paredes raspadas, uma pinguelinha de ripa de madeira, elevador não abria travava, ou então não subia nem fechava. Eu me esgueiro por onde dá, na passagem difícil, cheia de embaraços.
E não é que tem outro porteiro! Me barra a entrada novamente, e com ousadia, me solicita, em altos brados:
- Documentos! Senhorita!
Eu prontamente estico os braços, mas relembro – em voz baixa claro, só pra dentro:
- Eu venho sempre, o outro porteiro já me conhecia.
Noutro dia e a surpresa! Piso novinho, lâmpadas claras, o porteiro reinstalado, num lugar bem mais apropriado. Claro, claro, um ou outro retoque ainda precisa, mas já dá pra se ver a mudança.
Vendo o hall vazio pergunto ao porteiro, que já me recebe com um riso largo:
- Cadê o pessoal da obra?
- Já foram embora, voltam amanhã, só trabalham até às seis.
Eu sorrio de volta.
E penso, não sem certo ar de superioridade -“engano seu, moço porteiro!”
Depois das seis, seu mestre-de-obras e os pedreiros fazem hora-extra! E, pouco a pouco - a marteladas curtas para assentar tábuas mais largas – quase, quase já terminam a reforma é lá de casa!
Eu entro. Vou me encontrar com Fabiana! E com cautela (mas firmeza) abro a porta do elevador, que já desliza, e noto o aviso que diz:
- Cuidado, tinta fresca!

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Soneto do Sentimento

Soneto do Sentimento
             
Só goles de sono pela manhã,
Havia se embriagado da madrugada!
E, ao notar leito e mola alquebrada,
Arrematou exegese da terçã.

E repetiu seu nome para dentro
Como que engolindo sua palavra,
Letra a letra (e sema) assim permeada,
Para que, então, se fixasse a contento.

Não olvidou frases de vapor em pó,
Perfumado e tátil calor querêncio
E, sob lençóis, falanges andarilhas...

Entrementes, ansiou ouvir ainda, só
Mais uma vez, o delicioso silêncio
Do diálogo pulsante de pupilas...

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Amy e eu

Impossível não escrever algo sobre a morte de Amy Winehouse depois de refletir muito, e ouvir tantos outros comentários sobre “essa grande perda”, eu me sinto na obrigação de escrever. Um pouco porque gostava dela e da sua música. Um outro tanto porque Amy era muito parecida comigo, e portanto devo me defender.

Ouvi à exaustão comentários como “perdemos uma grande artista”, “coitada estava sofrendo por conta do assédio da mídia”, “podia ter sido tão mais, se não fossem as drogas”.

Eu discordo!

E posso dizer com convicção. Isso porque me escondi durante anos (décadas) atrás do que poderia ter sido. Me envolvi com coisas menores, me rodeei de pessoas menos capazes, tive trabalhos menos nobres, tudo para me manter na constante condição de um “talento desperdiçado”, muito cômoda aliás.

Também posso dizer com certa propriedade, como ex-usuária de drogas, que Amy foi exatamente o que foi sem ser mais, sem ser menos, do que poderia ter sido, com ou sem drogas. Muito porque a droga era parte dela, outro tanto porque ela se muniu destas para se tornar o que era. E usou e abusou da mídia (que tantos criticaram) para divulgá-la assim como era. Nem mais, nem menos.  A droga, o fracasso, a queda pública, a overdose, também são bela desculpa para sermos considerados potenciais melhores, sem sermos. Não tenho pena.

Enfim, não acho que a música perdeu nada. Não acho que Amy fará a “falta” que tantos alegam. Acho que ela estará lá para sempre! Acho que ganhamos, finalmente, o primeiro mito musical do século vinte e um, daqueles que sempre se terá a impressão que nunca morreram, ou que nunca estiveram aqui de fato. Daqueles poucos que tiveram a coragem e a audácia de morrerem jovens como Hendrix e Joplin (será?) e fica-se aí com a sensação de que eram melhores que os que aqui ficaram, obrigados a enfrentar cada dia e se provarem melhores do que seriam, porque terão que de fato ser. Viver!

Eu ganho em relação a Amy, na medida em que tenho vivido mais, e me provado mais que promessa, mais que um desperdício, mais que alguém que poderia ser, mas sobretudo, e agora, alguém que é de fato! Amy ganha de mim nos milhões que juntou em seus poucos anos, milhões em dinheiro, em fãs, em fama, e duvido, se bem a conheço, que ela trocaria seus milhões (todos) pela minha vidinha parca (ainda que alongada). Pelo simples fato de que, a meu ver, na sua consistência, não poderia ser nem mais, nem menos. Assim simples e sem desperdícios. Mas contou com a morte para sugerir aos outros que “poderia” ter sido diferente, ou melhor.

Estamos quites, Mrs. Winehouse... mas eu continuo vivendo!

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Confesso!
Cometi crime perfeito.
Sem testemunha.
Sem álibi.
Sem cúmplice.

Crime sem julgamento.
Sem castigo.
Sem pena.
Sem perdão, portanto.

Eu sangro,
Eu dôo,
Eu choro.

(Senhor!
Eu não mereço!
Eu não sou digna!
Mas me permita
Colocar uma só vez
Seu nome em minha boca)

Eu sangro.
Sangue vermelho
Sangue vermelho-sangue
Sangue vermelho-vivo
Sangue de morte
O sangue debulha
Soluça...

Eu dôo.
Minha dor punge
Minha dor é imune à analgesia
Minha dor tem certa dose
Minha dor tem própria posologia...

Eu choro.
Minha lágrima derrama
Minha lágrima não estanca...

(Senhor!
Eu não mereço!
Eu não sou digna!
Mas me permita
Colocar uma só vez
Seu nome em minha boca)

Eu choro, mas
Eu não choro de dor.
Eu não choro de culpa.
Eu não choro de remorso.

Eu choro porque eu estou só.